Este texto contém spoliers.
Cena do filme A Graça, de Paolo Sorrentino
Um presidente em fim de mandato e já no crepúsculo da própria vida é instado a refletir sobre duas grandes questões: o direito de por fim à própria vida e o perdão.
Eutanásia e Graça.
Pôr fim pode ser um ato de amor.
Essa é uma constatação muitas vezes dolorosa e difícil de aceitar, encoberta que é por questões morais diversas.
Há dois pedidos de graça que Mariano - personagem principal do filme, presidente italiano - tem que analisar.
De um lado um marido amoroso põe fim à vida da mulher com Alzheimer, doença que tinha transformado a existência de ambos em um inferno.
Do outro, uma mulher cuja vida também se tinha tornado infernal em razão das agressões de um companheiro violento. Não há aqui uma doença terminal cientificamente diagnosticada.
Mas somos levados à reflexão de que não deixava de haver ali uma patologia que, mais que objetivamente ameaçar a vida da terceiros, corroía há muito tempo a existência do próprio agressor.
Uma patologia que nenhuma ciência formal poderia diagnosticar como incurável, mas que a sensibilidade e lucidez dos envolvidos sabia reconhecer como irreversível e letal.
As circunstâncias externas de cada caso nos inclinam em direções opostas, que são surpreendidas pela decisão final de Mariano.
Nossas impressões superficiais nos fazem acreditar que o marido matou por amor. Mas chegando mais perto, percebemos que a realidade o havia endurecido a tal ponto e há tanto tempo que sabemos que não poderia haver ali amor. Por ninguém, nem por si próprio.
Por outro lado, somos surpreendentemente conduzidos a crer verossímil o amor de uma mulher diuturnamente agredida, que mata a facadas durante o sono da vítima. Conseguimos divisar nela uma espécie de lucidez sobre-humana, que compreende não só o próprio sofrimento, mas também o do agressor, a cuja existência dá fim não só por legítima defesa mas também por misericórdia.
Percorrer o caminho desses personagens durante o filme conduz a uma questão anterior, que é a quem pertencem nossos dias? À mesma pessoa pertence o direito do fim. O filme traz o componente religioso como um dificultador da questão, mas mesmo pros ateus esta é uma resposta difícil.
E a partir da compreensão - ou decisão - de que a nós pertencem nossos dias, aceitamos que a nós pertence também o direito do fim.
Mas o que há entre o início, a Aurora, e o fim, o Crepúsculo? Um tornar-se, que envolve perdas e ganhos. Neste processo podemos perder a leveza, a graça. E muitas vezes ela nos é devolvida por aqueles a quem um dia demos a vida, os filhos, que podemos compreender como metáforas para as gerações mais novas.
Esse caminho envolve o esforço de compreensão e aceitação do novo, que pode parecer grotesco à primeira vista, mas que é a única saída para que não caiamos na rigidez absoluta, que é o fim antes do fim.
Se insistimos no pensamento, chegamos à questão que é a de não controlarmos, sequer entendermos, aquilo que criamos e que nos salvará. Chegamos à dificuldade que é ter a confiança cega de que é dali, no entanto, que virá a graça, porque é ali que reside a vida. Será um afago, sim, quando vez ou outra eles nos derem de ouvir música clássica ou qualquer coisa que reconheçamos. Mas não há saída senão aprender a ver a "beleza do rap" -
e tudo mais que não compreendemos.
e tudo mais que não compreendemos.
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